A Fortaleza de Sagres constitui atualmente um dos 37 museus e monumentos tutelados pela Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E..
O conjunto monumental de Sagres apresenta grande relevância paisagística e patrimonial, sendo constituído pelo Promontório de Sagres e pela fortaleza nele instalada, cujo torreão e muralhas foram classificadas como Monumento Nacional a 16 de junho de 1910. Implanta-se no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina, criado pelo Decreto Regulamentar nº 33, de 11 de dezembro de 1995. Insere-se ainda na Rede Natura 2000, sendo considerado um Sítio de Importância Comunitária da Costa Sudoeste, abrangido pela Diretiva "Habitat" 92/43/CEE, constituindo desde 1999 uma Zona de Proteção Especial para Aves Selvagens.
O Promontório de Sagres apresenta ainda curiosas características geológicas, biofísicas e climáticas que se associam ao desenvolvimento de ecossistemas terrestres que integram plantas endógenas e comunidades específicas de espécies costeiras marítimas, dispondo de uma interessante biodiversidade faunística e florística e de endemismos únicos que todos os visitantes podem observar, sendo um importante local de observação de aves, atendendo à sua inserção nas rotas migratórias de diversas aves.
Em 2015, a Fortaleza de Sagres foi distinguida pela União Europeia com a atribuição da Marca do Património Europeu, não só por constituir um lugar de memória associado à génese do movimento de abertura da Europa ao Mundo, mas também pela riqueza e diversidade da paisagem natural e histórica que lhe está associada. Esta paisagem, que se estende até ao território de Lagos, testemunha as origens remotas da civilização europeia e a sua expansão universal através da ciência, do comércio e das atividades de exploração marítima, assumindo particular relevância no contexto europeu na transição do século XV para o século XVI. O Promontório de Sagres integra ainda a Rota de Al-Mutamid, que liga diversos espaços do Sul da Península Ibérica associados a esta relevante personalidade da cultura árabe medieval, a qual constitui parte da Rota do Legado Andaluz, reconhecida como Itinerário Cultural pelo Conselho da Europa, bem como a Rota Europeia dos Descobrimentos e ainda a Rota Vicentina, uma rede de percursos pedestres que atravessa a costa sudoeste de Portugal, considerada uma das zonas costeiras mais belas e preservadas da Europa, em que se inclui, quer o Caminho Histórico que percorre 230 Km ligando Santiago do Cacém ao Cabo de São Vicente, quer o chamado Trilho dos Pescadores, que segue a linha de costa. Foi ainda atribuído ao Promontório de Sagres o título honorífico de «Lugar Internacional de Cultura e Paz», sendo considerado pelo Observatório Internacional de Direitos Humanos um espaço que transmite tranquilidade, bem-estar e conhecimento a todos os que o visitam, promovendo os valores da interculturalidade, da igualdade e da paz.
A Fortaleza de Sagres integra uma paisagem cultural marcada por uma localização geoestratégica muito particular, no extremo sudoeste da Europa e num espaço de articulação de importantes rotas oceânicas, constituindo uma finisterra que, desde a Antiguidade, tem uma conotação mítica, situando-se nos confins do mundo então conhecido. O Promonturium Sacrum, como surge referido nos escritos do mundo antigo, ergue-se a 40 metros de altitude, acentuando o carácter selvagem, agreste e inóspito do lugar, marcado por uma grande beleza natural.
A dimensão espiritual deste espaço assumiu-se, ao longo da história, como um aspeto transversal às diversas civilizações nele presentes e reflete-se nos testemunhos materiais da envolvente, em que se incluem a cultura megalítica, o culto a Hércules, mais tarde substituído pelo culto vicentino em torno da lendária igreja do corvo e das rotas de peregrinação que a ela se dirigiam, a que posteriormente se aliou a fundação de um mosteiro de tradição eremítica, implantado numa paisagem e toda ela imbuída de ascetismo.
Foi neste espaço inóspito, mas de grande relevância geoestratégica e de uma imensa dimensão espiritual, que o Infante D. Henrique, após o desastre de Tânger e o consequente martírio do Infante Santo, escolheu fundar a sua Vila do Infante, implementando um programa urbanístico planificado com a construção dos edifícios da chamada «correnteza», onde se inclui a torre-cisterna, e uma igreja dedicada a Santa Maria. Apesar das modificações sofridas, conservam-se alguns dos elementos do conjunto, subsistindo igualmente partes da muralha henriquina, com configuração em «dente-de-serra», à qual se acrescentaram baluartes no reinado de D. Sebastião, tendo a barbacã sido alterada em época filipina e, posteriormente, incorporada na torre da fortaleza setecentista. No final do século XVIII, a fortificação sofreu intervenções seguindo um projeto do engenheiro militar José de Sande Vasconcelos, com a edificação de dois baluartes (de Santa Bárbara a poente e de Santo António a nascente) unidos por uma cortina de muralha, integrando igualmente um conjunto de baterias dispostas ao longo do promontório.
Sendo Sagres uma zona de cruzamento de rotas entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico, porto de pescadores e comerciantes de várias nações, seria uma zona muito assolada por corsários, o que justificou que aí se instalasse uma imponente fortificação que se assumiu durante séculos como uma importante praça de guerra no contexto do funcionamento de um sistema defensivo marítimo estratégico visando garantir o controlo das rotas marítimas e a defesa da fronteira. Junto ao promontório subsiste, de resto, um notável património cultural subaquático que testemunha a relevância desta rota de navegação, o qual deve ser protegido e valorizado, constituindo Sagres um destino privilegiado do mergulho cultural na Europa.
Apesar da relevância paisagística e patrimonial de todo o conjunto arquitetónico e monumental, as leituras que tem suscitado permanecem incompletas e ainda muito associadas a visões ideológicas, as quais foram disseminadas, quer durante o Romantismo, quer pela tradição historiográfica do Estado Novo. De acordo com estas tradições, tem sido destacada sobretudo a associação deste espaço à figura do Infante D. Henrique e a uma visão triunfalista dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa, tendo sido desenvolvido um extenso programa de intervenção neste monumento por ocasião das celebrações do quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, em 1960. Nessa perspetiva, Sagres pode ser considerada um “património difícil” ou “dissonante”, ainda hoje muito vinculada a uma narrativa que procurou glorificar Henrique o Navegador e os seus feitos, que criou o mito da chamada “Escola de Sagres” e contribuiu para disseminar uma certa visão da Expansão Portuguesa, omitindo, em contrapartida, aspetos menos positivos desse processo histórico.
Morada
Rua da Fortaleza8650-360 Sagres
Vila do Bispo
Faro
Director(a) / Responsável
- Ana Cláudia Silveira

